A ESTÉTICA ESTÁ MAIS TECNOLÓGICA, MAS SERÁ QUE OS PROFISSIONAIS ESTÃO MAIS PREPARADOS? O ERRO QUE PODE ESTAR A COMPROMETER OS SEUS RESULTADOS
Mais aparelhos, mais protocolos, mais promessas. Mas por que razão tantos profissionais continuam sem conseguir os resultados que desejam nos tratamentos corporais?
Por Sara Lima, profissional de estética e formadora há mais de 30 anos.
Ao longo de mais de três décadas dedicadas à estética, avaliei e acompanhei um número incontável de clientes em tratamentos corporais. Cada pessoa trouxe consigo uma história, características próprias, diferentes respostas aos tratamentos e desafios que exigiam observação, conhecimento, adaptação e persistência.
Foi precisamente essa experiência que me ensinou uma das lições mais importantes da minha profissão: não existem dois clientes exatamente iguais, por isso não podemos esperar que um protocolo padronizado produza os mesmos resultados em todas as pessoas.
E é aqui que começa uma reflexão que considero urgente para os profissionais de estética.
Antigamente, tínhamos menos aparelhos. Hoje, temos mais tecnologia. E os resultados?
Quando comecei a trabalhar na área, a realidade era muito diferente da que conhecemos atualmente. Não existia a infinidade de equipamentos disponíveis no mercado, nem a velocidade com que surgem novas tecnologias, novas marcas e novas promessas de resultados.
Grande parte do trabalho era realizado manualmente. Precisávamos de conhecer os tecidos, observar as alterações corporais, desenvolver a sensibilidade das mãos e compreender como adaptar cada intervenção às características da pessoa que tínhamos à nossa frente.
Não era necessariamente mais fácil. Pelo contrário, exigia esforço físico, experiência, capacidade de observação e um profundo conhecimento das técnicas utilizadas.
Hoje, a tecnologia oferece-nos ferramentas extraordinárias. Os equipamentos podem complementar o trabalho manual, facilitar determinados procedimentos, reduzir o esforço físico e ampliar as possibilidades de intervenção.
Não sou contra a tecnologia. Seria absurdo ignorar os avanços que a estética conquistou.
O problema começa quando o equipamento deixa de ser uma ferramenta nas mãos do profissional e passa a ser o próprio profissional a depender exclusivamente dele.
A corrida aos aparelhos está a substituir o conhecimento?
Basta observar o mercado para perceber a velocidade com que surgem novos equipamentos. Muitas vezes, encontramos aparelhos com funções semelhantes, apresentados com nomes diferentes, acompanhados de campanhas que prometem resultados cada vez mais impressionantes.
O profissional compra um equipamento, aprende um protocolo, aplica-o durante determinado número de sessões e espera que o resultado corresponda à promessa comercial.
Quando isso não acontece, o que faz?
Procura outro aparelho. Compra uma nova tecnologia. Aprende um novo protocolo.
Mas será que o problema estava realmente na falta de equipamento?
E se o verdadeiro problema estiver na avaliação inicial, na escolha inadequada do tratamento, na ausência de acompanhamento ou em fatores individuais que nunca foram devidamente investigados?
Um equipamento não consegue compensar todas as lacunas de conhecimento de quem o utiliza.
Comprar tecnologia não é o mesmo que adquirir competência profissional.
Um bom profissional não se distingue pela quantidade de aparelhos que possui, mas pela capacidade de compreender quando, porquê e em que condições deve utilizar cada recurso.
Dez ou doze sessões chegam para toda a gente?
Muitos tratamentos corporais são comercializados em pacotes de dez a doze sessões. Este formato pode ser útil para organizar um plano de acompanhamento, mas não deve ser confundido com uma garantia universal de resultados.
Ao longo da minha experiência, aprendi que a resposta aos tratamentos depende de múltiplos fatores: características individuais, condição dos tecidos, objetivos definidos, hábitos de vida, possíveis condições de saúde, adesão às recomendações e adequação das técnicas escolhidas.
Há pessoas que apresentam uma evolução satisfatória dentro do período inicialmente previsto. Outras necessitam de uma abordagem diferente, de mais tempo ou de uma reavaliação completa do plano.
E existem situações em que o tratamento inicialmente escolhido não é o mais indicado.
É precisamente por isso que defendo a avaliação contínua. Não podemos transformar um número de sessões numa fórmula universal e esperar que todos os organismos respondam da mesma maneira.
O protocolo deve servir o cliente. O cliente não deve ser obrigado a encaixar no protocolo.
O tratamento começa antes de ligar o aparelho
Este é, na minha opinião, um dos aspetos mais negligenciados na estética contemporânea.
A atenção concentra-se frequentemente no procedimento: qual o aparelho a utilizar, que intensidade selecionar, quantas sessões realizar e que produto aplicar.
Entretanto, ficam para trás perguntas fundamentais.
Quando começou a alteração corporal que trouxe o cliente à consulta? Foi gradual ou repentina? Que mudanças ocorreram na sua vida nesse período? Existem medicamentos, condições de saúde, alterações hormonais diagnosticadas ou outros fatores que possam influenciar a situação? Que tratamentos já realizou? Como respondeu a eles?
Estas perguntas não servem para transformar o esteticista num médico. Servem para compreender melhor o contexto do cliente, reconhecer os limites da intervenção estética e identificar quando é necessário encaminhamento para outro profissional de saúde.
Uma boa anamnese não é um formulário preenchido por obrigação. É uma ferramenta de raciocínio profissional.
E não deve ser substituída por uma conversa apressada antes de iniciar o procedimento.
Se não sabemos o que estamos a tratar, como podemos justificar a escolha do tratamento?
Água, alimentação e estilo de vida: recomendações não devem ser receitas universais
Outro problema é a repetição automática de recomendações que parecem servir para toda a gente.
Beber dois ou três litros de água por dia. Fazer três refeições. Eliminar determinados alimentos. Caminhar mais. Reduzir calorias.
Estas orientações podem fazer sentido em determinados contextos, mas não devem ser apresentadas como regras absolutas, desligadas das necessidades individuais e da história de saúde de cada pessoa.
As necessidades de hidratação variam, por exemplo, com a atividade física, o clima, a alimentação e as condições de saúde. Algumas pessoas necessitam de restrições de líquidos por indicação médica.
Da mesma forma, não cabe ao profissional de estética prescrever dietas terapêuticas ou impor restrições alimentares sem a formação e a habilitação necessárias. O seu papel é reconhecer os fatores relevantes para o tratamento, orientar dentro dos limites da sua competência e encaminhar o cliente para um nutricionista ou outro profissional habilitado quando necessário.
O mesmo raciocínio aplica-se às alterações de peso.
Se uma pessoa refere que começou a ganhar peso após determinado acontecimento, essa informação merece ser ouvida. Medicamentos, sono, alterações de rotina, fatores psicológicos e determinadas condições de saúde podem influenciar o peso corporal.
As alterações hormonais são uma possibilidade entre várias, não uma explicação automática para todos os casos. A sua investigação e interpretação clínica pertencem aos profissionais de saúde habilitados.
Não precisamos de diagnosticar para reconhecer que pode existir um problema que ultrapassa a nossa área de atuação.
Precisamos, sim, de saber fazer as perguntas certas e reconhecer quando devemos encaminhar.
A avaliação de saúde não pode ser substituída pela intuição
Há outro ponto que merece atenção: os limites da avaliação realizada pelo profissional de estética.
A medição da tensão arterial, a determinação da glicemia e a avaliação do colesterol não são procedimentos obrigatórios para todos os tratamentos estéticos, nem devem ser realizados indiscriminadamente por todos os profissionais. A sua pertinência depende do contexto, da formação, da competência legal e dos protocolos de segurança aplicáveis.
Contudo, é essencial saber reconhecer fatores de risco, recolher a informação relevante sobre o historial de saúde e identificar situações em que o tratamento deve ser adiado ou precedido de avaliação clínica.
Também é indispensável conhecer as contraindicações, as precauções e os riscos específicos de cada equipamento e procedimento.
Não basta saber ligar uma máquina e selecionar um programa.
É necessário compreender as instruções do fabricante, os limites de utilização, as situações em que o procedimento não deve ser realizado e os sinais que exigem a interrupção do tratamento.
E, quando existe uma suspeita que não podemos esclarecer dentro da nossa competência, encaminhar o cliente não representa uma derrota profissional. Representa responsabilidade.
A segurança deve estar sempre acima da venda de um pacote de sessões.
A anamnese não é tempo perdido. É parte do tratamento.
Compreendo que o mercado seja competitivo e que muitos profissionais sintam pressão para atender mais clientes, rentabilizar o tempo e apresentar resultados rapidamente.
Compreendo também que uma primeira consulta extensa, sobretudo quando não é remunerada, possa parecer pouco rentável.
Mas existe uma diferença enorme entre perder tempo e investir tempo na avaliação.
Uma anamnese bem conduzida ajuda a identificar objetivos realistas, compreender antecedentes relevantes, reconhecer possíveis contraindicações, selecionar abordagens adequadas e estabelecer critérios para avaliar a evolução.
Também permite explicar ao cliente o que pode esperar, o que não pode ser prometido e por que razão determinado procedimento pode não ser indicado.
Naturalmente, a avaliação não garante resultados nem elimina todos os riscos. Contudo, reduz a dependência de decisões tomadas por rotina e contribui para uma prática mais fundamentada.
O profissional que não investiga o suficiente pode acabar por repetir procedimentos sem compreender por que razão o cliente não responde como esperado.
E, nesse momento, a solução não é necessariamente acrescentar mais sessões ou comprar outro equipamento.
Pode ser necessário parar, reavaliar e mudar de estratégia.
O que distingue uma profissional que executa protocolos de uma profissional que sabe tratar?
A diferença não está apenas na experiência acumulada, nem na quantidade de cursos realizados.
Está na capacidade de integrar conhecimento, observação, raciocínio, técnica e responsabilidade.
Uma profissional competente sabe que:
Um protocolo é um ponto de partida, não uma garantia de resultado.
Um equipamento é uma ferramenta, não uma solução universal.
Uma alteração corporal deve ser compreendida no seu contexto individual.
A avaliação deve acompanhar o tratamento, permitindo verificar se a estratégia continua adequada.
As contraindicações e os limites de atuação devem ser conhecidos antes de iniciar qualquer procedimento.
Existem situações que exigem o encaminhamento para médicos, nutricionistas ou outros profissionais de saúde.
Nem todos os clientes são candidatos ao mesmo tratamento, mesmo quando apresentam uma queixa aparentemente semelhante.
É esta capacidade de pensar que permite evoluir profissionalmente.
E é também uma das razões pelas quais tantas profissionais procuram formação adicional sem conseguirem ultrapassar determinadas dificuldades: aprender mais técnicas é importante, mas aprender a avaliar, interpretar e tomar decisões fundamentadas é igualmente essencial.
A minha mensagem aos profissionais de estética
Depois de mais de 30 anos nesta área, continuo a acreditar na evolução da estética, na formação contínua e no valor da tecnologia.
Mas acredito, acima de tudo, que não podemos permitir que a facilidade de execução substitua a capacidade de raciocínio.
Não precisamos de rejeitar os aparelhos. Precisamos de saber utilizá-los com conhecimento.
Não precisamos de abandonar os protocolos. Precisamos de compreender as suas indicações e limitações.
Não precisamos de transformar a estética numa prática médica. Precisamos de respeitar os limites da nossa profissão e trabalhar de forma responsável com os profissionais de saúde sempre que necessário.
O verdadeiro avanço da estética não se mede pelo número de equipamentos lançados todos os anos, nem pela quantidade de sessões vendidas.
Mede-se pela qualidade da avaliação, pela segurança dos procedimentos, pela capacidade de individualizar os cuidados e pela honestidade com que comunicamos os resultados possíveis.
A tecnologia pode executar uma função. Mas é o conhecimento do profissional que deve orientar a decisão de a utilizar.
Se queremos elevar o nível da nossa profissão, temos de começar por uma pergunta simples:
Estamos a tratar pessoas ou estamos apenas a executar protocolos?
Esta é uma reflexão que deixo a todos os profissionais que, tal como eu, desejam continuar a evoluir e a dignificar a estética.
Sara Lima
Academia Online Sara Lima

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