domingo, 5 de julho de 2026

Ossos Sesamóides e Sesamoidite



Os ossos sesamoides são pequenos ossos arredondados que se desenvolvem no interior de tendões. O seu nome deriva da sua semelhança com as sementes de sésamo.

Embora existam vários ossos sesamoides no corpo humano, os mais importantes do ponto de vista clínico localizam-se na planta do pé, sob a cabeça do primeiro metatarso, na articulação do dedo grande do pé (hálux).


O que são os ossos sesamoides?

Os sesamoides são ossos que:

  • Desenvolvem-se dentro de um tendão.
  • Não fazem parte da continuidade normal do esqueleto.
  • Estão presentes em zonas sujeitas a elevada pressão e atrito.
  • Funcionam como pequenas polias biomecânicas.

No pé existem normalmente dois ossos sesamoides:

  • Sesamoide medial (tibial)
  • Sesamoide lateral (fibular)

Ambos encontram-se incorporados no tendão do músculo flexor curto do hálux.


Localização

Situam-se:

  • Na face plantar do pé.
  • Debaixo da cabeça do primeiro metatarso.
  • Entre o tendão flexor e o solo.
  • Muito próximos da articulação metatarsofalângica do hálux.

Quando caminhamos, praticamente todo o peso corporal passa por esta região durante a fase final da passada.


Funções dos ossos sesamoides

1. Aumentar a eficiência muscular

Funcionam como uma polia.

Ao aumentar a distância entre o tendão e o eixo da articulação, aumentam o braço de alavanca do músculo.

Resultado:

  • Maior força.
  • Menor esforço muscular.

2. Distribuir cargas

Recebem parte do peso corporal.

Durante a marcha podem suportar forças equivalentes a:

  • 2 vezes o peso corporal ao caminhar.
  • 3 a 8 vezes o peso corporal durante corrida e salto.

3. Proteger os tendões

Evitam:

  • Compressão excessiva.
  • Desgaste.
  • Atrito contra o primeiro metatarso.

4. Reduzir fricção

Permitem um deslizamento mais suave dos tendões.


5. Melhorar a propulsão

Na fase de impulsão da marcha, ajudam o hálux a empurrar o corpo para a frente.

Sem eles:

  • A marcha torna-se menos eficiente.
  • O esforço muscular aumenta.

Anatomia

Cada sesamoide possui:

  • Superfície articular lisa.
  • Cartilagem hialina.
  • Ligamentos de estabilização.
  • Inserções tendinosas.

Entre ambos passa o tendão do músculo flexor longo do hálux.


Irrigação sanguínea

A vascularização é relativamente limitada.

Por isso:

  • Fraturas podem demorar a consolidar.
  • Inflamações podem tornar-se crónicas.

Variações anatómicas

Nem todas as pessoas apresentam sesamoides exatamente iguais.

Podem existir:

  • Sesamoide bipartido (dividido em duas partes).
  • Sesamoides maiores.
  • Sesamoides menores.
  • Ausência rara de um dos sesamoides.

Um sesamoide bipartido é uma variação anatómica normal e não deve ser confundido com uma fratura.


O que é a sesamoidite?

A sesamoidite é uma inflamação dolorosa dos ossos sesamoides e/ou dos tecidos adjacentes, geralmente causada por sobrecarga mecânica repetitiva.

É considerada uma lesão por esforço repetitivo.


Como ocorre?

Cada passo produz compressão dos sesamoides.

Quando existe excesso de carga, ocorre:

  • Microtrauma.
  • Inflamação.
  • Edema ósseo.
  • Dor.

Sem tratamento, podem surgir:

  • Fraturas por stress.
  • Osteonecrose.
  • Degeneração articular.

Causas

As principais causas incluem:

Sobrecarga

  • Caminhadas prolongadas
  • Corridas
  • Saltos
  • Dança

Calçado inadequado

  • Saltos altos
  • Sapatos muito rígidos
  • Calçado estreito

Alterações biomecânicas

  • Pé cavo
  • Hálux valgo
  • Primeiro metatarso longo
  • Rigidez do hálux
  • Excesso de pronação ou supinação

Trauma direto

Queda de objeto pesado sobre o pé.

Atividades profissionais

Muito tempo em pé.


Pessoas de maior risco

  • Corredores
  • Bailarinos
  • Jogadores de futebol
  • Ginastas
  • Caminheiros
  • Profissionais que permanecem muitas horas de pé

Sintomas

Dor

O sintoma principal.

Caracteriza-se por:

  • Dor localizada debaixo do dedo grande.
  • Dor ao caminhar.
  • Dor ao correr.
  • Dor ao subir escadas.
  • Dor ao ficar na ponta dos pés.

Sensação de pedra no sapato

Muitos doentes descrevem:

"Parece que estou a pisar uma pedra."


Inflamação

Pode surgir:

  • Edema local
  • Sensibilidade intensa
  • Calor

Limitação funcional

O doente evita apoiar o hálux.

Consequentemente:

  • Altera a marcha.
  • Sobrecarrega outras regiões do pé.

Diagnóstico

O diagnóstico baseia-se em:

História clínica

  • Tipo de dor
  • Atividade física
  • Trauma

Exame físico

Dor à palpação plantar dos sesamoides.

Dor ao dobrar o hálux.


Exames complementares

Podem incluir:

  • Radiografia
  • Ecografia
  • Ressonância magnética (mais sensível para detetar edema ósseo e lesões dos tecidos moles)
  • Tomografia computorizada, em casos selecionados

Diagnóstico diferencial

É importante distinguir a sesamoidite de outras condições, como:

  • Fratura dos sesamoides
  • Fratura por stress
  • Osteonecrose do sesamoide
  • Artrite da articulação metatarsofalângica
  • Bursite
  • Tendinite do flexor longo do hálux
  • Compressão nervosa plantar
  • Gota
  • Artrite inflamatória

Tratamento conservador

Na maioria dos casos, o tratamento não requer cirurgia.

Inclui:

Redução da carga

  • Diminuir caminhadas longas.
  • Evitar corrida temporariamente.

Gelo

Aplicações durante 15 a 20 minutos, várias vezes ao dia nas fases dolorosas.

Calçado adequado

Preferir:

  • Sola amortecida
  • Boa absorção de impacto
  • Biqueira larga

Evitar:

  • Saltos altos
  • Sapatos rígidos

Palmilhas

Podem incluir:

  • Descarga dos sesamoides
  • Apoio do arco plantar
  • Almofadas em "U" ou recortes para reduzir a pressão sob os sesamoides

Fisioterapia

Pode incluir:

  • Alongamentos
  • Mobilização articular
  • Fortalecimento muscular
  • Treino da marcha

Tratamento medicamentoso

Sob orientação médica podem ser utilizados:

  • Analgésicos
  • Anti-inflamatórios não esteroides (AINEs)

Em casos selecionados, infiltrações podem ser consideradas, mas devem ser usadas com cautela devido ao risco de lesão dos tecidos adjacentes.


Tratamento cirúrgico

É reservado para situações específicas, como:

  • Dor persistente após tratamento conservador prolongado
  • Fraturas que não consolidam
  • Osteonecrose
  • Sesamoides gravemente lesionados

A cirurgia pode envolver a remoção parcial ou total do sesamoide (sesamoidectomia), mas essa decisão exige uma avaliação cuidadosa, pois a remoção pode alterar a biomecânica do hálux.


Prevenção

Algumas medidas ajudam a reduzir o risco de sesamoidite:

  • Utilizar calçado adequado para a atividade.
  • Evitar aumentos bruscos da intensidade do exercício.
  • Fortalecer a musculatura do pé e da perna.
  • Corrigir alterações biomecânicas quando necessário.
  • Manter um peso corporal saudável.
  • Tratar precocemente dores persistentes na região plantar do hálux.

Prognóstico

A maioria das pessoas melhora com tratamento conservador, embora a recuperação possa demorar várias semanas ou meses, dependendo da gravidade e da continuação da sobrecarga. O retorno às atividades desportivas deve ser gradual e orientado pela ausência de dor.

Para profissionais de podologia, fisioterapia e estética integrativa, reconhecer precocemente a sesamoidite é essencial para evitar complicações como fraturas por stress, osteonecrose e alterações permanentes da marcha. Uma avaliação biomecânica completa, associada a medidas de descarga e reabilitação, oferece os melhores resultados a longo prazo.

 

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